quinta-feira, janeiro 14, 2016

os afetos: a busca pelo insubsistente


Formigas minúsculas passeiam pelas cômodas brancas em linha reta. Pergunto-me: "e se as formigas pensassem?" Não foi a única nem a primeira vez que me fiz essa pergunta.  Se as formigas pensassem, talvez andassem de forma caótica, sem linha, sem reta. Ou muito provavelmente seguiriam o mesmo comportamento de agora - no entanto, sempre achando que este lhes foi imposto, ou condicionado. Se as formigas pensassem, elas iriam querer não pensar.

(enquanto escrevo, continuam a caminhar em fila indiana e calculam distância - mas não pensam. calculam, talvez as formigas pensem.)


Se mente e corpo para o filósofo spinoza são uma só coisa, pode o corpo pensar e a mente agir. Sendo assim, o corpo incide sobre ação da mente e não tão apenas o contrário como há algum tempo se acreditava. Essa ideia é velha, eu gosto dela. Essa ideia é também um tanto metafísica e é por isso que gosto dela.

afeto: afecções de um corpo sobre o outro alteram a potência de agir, diminuindo refreando esta potência, assim como as ideias correspondentes a elas. Se aumentadas, reagem; diminuídas, padecem.

Enquanto na noção de ideia temos um caráter representativo: o simbólico, o signo, significante, o imaginário, etc; no afeto jamais temos. Vislumbramos uma busca pela representação do afeto, mas ele não tem caráter representativo, foi deleuze que disse assim e eu acredito. O afeto é transitivo dado um espaço e momento em que acontece: é a passagem de um grau de perfeição a outro. Normalmente  se tem uma ideia do que é o amor, da pessoa amada; mas o amor em si...  o amor em si não representa nada.

Tenho frustrações por não saber lidar com a falta do caráter representativo dos afetos e não saber nem sentir ou pensar sobre.

Sem o caráter representativo é um mistério o vínculo; porque ele só poderia ser constituído pela ordem dos afetos. Se quer fugir do vínculo, fuja dos afetos - é tão impossível quanto querer que as formigas pensem.

Viver sem vínculos é pensar em viver. Se existe amor, logo se pensa e se sente - simultâneo. Também é justo obedecer a lógica do prazer e a dualidade corpo e alma de platão - penso que é mais fácil. E só o difícil me interessa, isso virou um mantra.

Para mim,  a pós-modernidade sustenta ainda duas correntes: a da objetificação do prazer em detrimento dos afetos e a da compreensão dos afetos não como representação, mas como uma lógica de vida.

eu fico com spinoza, deleuze, buda, jesus cristo..


não existe verdade: afetos e formigas, eles existem.

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