sexta-feira, dezembro 04, 2015

O encontro

Depois de alguns minutos olhando para a mesma tela, levantou-se ao perceber a presença de outro. Beatriz se incomodava demais com o som ofegante da respiração alheia. Só de imaginar que estava respirando o mesmo ar que há poucos segundos havia passado pelo o pulmão de outrem - só de imaginar - já lhe causava náuseas. O elevador era uma tortura. Três, cinco pessoas e o mesmo oxigênio, que logo viraria CO2 . Ela tinha nojo. Beatriz é diferente de mim. Beatriz não é carente e só acredita na intimidade imposta, pouco sincera. Não acha natural respirar o mesmo ar que outras pessoas, apesar de esta ser a única maneira de viver já que habitamos um mesmo planeta.
O rapaz percebeu o susto de Bia e pediu desculpa. Ela olhou em seus olhos. Ele viu de novo o cheiro de sal que saía deles. Bia que tinha em suas retinas metade água, metade ar, nunca chorava. Beatriz é diferente de mim. Ela vive em eterna melancolia, porque a lágrima não desce, fica sempre retida. Disciplinada.
"Tudo bem" - disse de forma envergonhada. O rapaz se impressionou, pois pensava que a moça iria ser grossa, dada a expressividade com que se levantou. Ela logo estendeu a mão e eles se cumprimentaram. Beatriz não tinha nojo do toque, pois o toque é físico - é mais atrito do que troca de calor. A troca gasosa é mais química do que física e era por isso que ela tinha nojo de respirar; para Beatriz, o que causa náusea é a química e não a física. Nessas situações absurdas, que eram quase todas, ela sempre pensava se o que vivia era mais físico ou mais químico e assim poderia decidir o que fazer. Ainda impressionado, ele respondeu ao cumprimento e ao fazê-lo disse: "Prazer, Eduardo", e ela disse "prazer", sem dizer o nome; pois o nome é químico e suscitava muita intimidade para um primeiro momento.

antes disso eles estavam aqui

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