segunda-feira, novembro 02, 2015

Contemplação

existe um estado de espírito em que tudo se torna poético. Os olhos se elevam a condição de sentir e não mais apenas ver. Todas as imagens são passíveis de sensação. As palavras, as pessoas, as coisas. Toda a banalidade é poética. Quando se chega a esse estágio, é preferível sair do convívio social, pois é muito perigoso. Corre-se o risco da loucura.
No entanto, isto não faz de você um ser especial. Pelo contrário, a faz estranha e sem rumo; traz de novo aquela velha sensação de não-pertencimento, não-lugar, etc. De qualquer forma, sei como gostas de entrar neste estágio. Então, compartilho minha técnica:

1. Primeiro, é necessário que estejas habituada a teu corpo. Sem vergonha ou pudor. Sei o quanto é difícil, mas não desista. Sinta e toque teu corpo. Encoste delicadamente em teus objetos preferidos. Desgaste tua pele contra tua pele. Coloque-se nua de frente ao espelho durante uma hora por dia.

2. Em segundo lugar, não tenhas medo do ridículo e nem de sê-lo. Para isso, basta expressar as emoções como elas vêm. Eu por exemplo, danço e pulo ao estar contente. Se triste, choro. Se cansada, embriago-me e falo só. Deixe que as emoções venham e se realizem enquanto ação. Jamais as guarde apenas como pensamento. Se ainda tens vergonha, escreva.

3. Em terceiro, treine teus sentidos.  A meditação pode te ajudar. Perceba. Ao suar, sinta sob os poros da tua pele cada molécula que se desintegra do teu corpo, então levarás um susto.

No supermercado, em um dia chuvoso, ao ver a imagem de duas velhas, não vais olhar como apenas duas velhas. Vais perceber os movimentos dificultados pela idade, impedindo-as de empurrar um carrinho de compras.  Vais projetá-las em câmera lenta. De tanto observar, vais perceber que uma delas usa esmalte vermelho carmim nas unhas da mão. O dedão com esmalte descascado arruma um chapéu amarelo também desgastado porém de cor brilhante. Então, vais levar um susto e sorrir.

A moça do caixa vais te olhar com desdenho.


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