quarta-feira, julho 02, 2014

A origem da putaria no amor: eros como sentimento de consumo

Canto a Beleza, canto a putaria
De um corpo tão gentil como profano;
Corpo que, a ser preciso, engoliria
Pelo vaso os martelos de Vulcano;
Corpo vil, que trabalha mais num dia
Do que Martinho trabalhou num ano;
E que atura as chumbadas e pelouros
De cafres, brancos, maratás e mouros.
BOCAGE, A Manteigui

            Eros, ágape e philos são os três nomes gregos para o amor.  O primeiro vem da pulsão sexual, o desejo, a falta. Lembrado por Platão em “ O Banquete” e também citado por Sigmund Freud para explicar as teorias da sexualidade. Ágape é o amor relacionado a amizade, o amor ao que excede, e não mais ao que nos falta. Por último vem philos, o sentimento humanitário, espiritual, advém da caridade.
            No entanto, Eros é o amor primordial, o sentimento animalesco que dá origem às demais sensações do ser humano. Para Freud, o princípio erótico é a própria pulsão de vida, em outras palavras, a ação. Exemplo é o bebê que suga o leite materno dos seios de sua mãe – além de matar a fome, a ação também dá prazer, sensação de consumo, de completude.

[1]Em nenhum outro caso Eros se revela tão claramente o âmago do seu ser, o propósito de transformar vários em um, mas quando – como é proverbial- alcança isso no amor entre dois seres humanos, não admite ir além.
FREUD, Sigmund PAG 64

            Para o filósofo Jean Yves Leloup, esse é o amor dito como voraz. [2] “É o amor de consumo. Amo o outro, portanto como-o”. Um sentimento que se confunde entre o querer bem e o possuir, consumir, literalmente. Como o fogo consome a matéria, é o amor-paixão , não apenas físico, mas humano. É a dicotomia existente entre pulsão de vida e pulsão de morte em Freud, pois como disse o mesmo, “não se permite ir além”, este é o ponto final, é o climáx. Ama-se tanto que se chega à dor, ao pathos.
            Na Bíblia eros tem interpretações diferentes no Antigo e no Novo Testamento. Enquanto no primeiro vê-se a  interpretação deste como um amor entre homem e mulher, sem juízo de valor determinado, o Novo testamento o aponta como sendo algo ruim, meramente “carnal” às crenças cristãs.
Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço; porque o amor é tão forte como a morte, a insistência em devoção exclusiva é tão inexorável como o Seol. Suas labaredas são as labaredas de fogo, a chama de Já. Mesmo muitas águas não são capazes de extinguir o amor, nem podem os próprios rios levá-lo de enxurrada.
(Cânticos. 8:6, 7 – Antigo Testamento)

            Tratando-se de um nome dado a um deus grego e pagão, os escritores bíblicos excluíram a interpretação de eros novo testamento . O livro se refere apenas à ágape – o sentimento fraternal. O amor carnal, de consumo, foi abolido para os cristãos: impuro, sujo, sinônimo de fornicação.

Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, fornicação, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus.
(Gálatas 5:19-21)

            Com a popularização do cristianismo, a “fornicação” , que antes era comum nos bacanais romanos e nas orgias gregas, passa ser exclusividade das “mulheres perdidas”, insalubres, prostitutas, putas. Daí a putaria. O consumo do outro a qualquer custo (pagando-se), fora das leis religiosas ou sociais.  O erótico deixou de ser algo cênico e poético e passa a ser desprezível, obsceno, ligado ao materialismo, à “carne”, como diz a Bíblia. Torna-se putaria na ação e pornografia na questão visual.
            A palavra putaria aparece com vários sinônimos na literatura francesa, o mais recorrente é obscenidade. No dicionário Aurélio, “Obsceno [Do lat. obscenu.] : Adj. 1. Que fere o pudor; impuro, desonesto. 2. Diz-se de quem profere ou escreve obscenidades”. É o que se deve evitar ou esconder, colocar fora de cena. A putaria é inadmissível já que está aquém valores nobre e morais. Quem “padece” da putaria, no entanto, ainda ama, pois sente o desejo erótico, agora suprimido, classificado como “amor menor”, ou nem mais amor.
            Basta questionar sobre as putas, seriam elas seres inamáveis, desamáveis, por consequência inanimados, ou menores? São objetos de amor, não apenas de consumo físico, mas erótico. São elas que deixam outros homens-bebês mamarem em seus seios vontades de outras pulsões reprimidas.

Bibliografia

FREUD, Sigmund – O mal-estar na cultura

LELOUP, Jean Yves – O corpo e seus símbolos

Bíblia Sagrada

L Maffei - Via Atlântica, 2007 - revistas.usp.br

F Vandenberghe - Ciências Sociais Unisinos, 2006 - revistas.unisinos.br



[1] FREUD, Sigmund – O mal-estar na cultura
[2]  LELOUP, Jean Yves – O corpo e seus símbolos

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