quarta-feira, janeiro 22, 2014

Observações sobre insônia



corações no para-brisa. foto: bárbara cabral 


1. Maria Alice

Alice não sonhava. Era insone. Escutava música clássica durante a madrugada. Tomava melatonina no jantar. Vivia de frente para a rua mais movimentada da cidade. Ela conseguia dar cochiladas. Vocês poderiam dizer que Maria Alice sonhava, só não lembrava. Mas a mulher não chegava sequer ao estado REM, tão pouco revirava os olhos durante uma transa. Nunca sonhou.  Maria Alice é toda a realidade que a outra não teve. Sem meio-termo. Afinal, ele existe? Para ela, não. Nem com entorpecentes Alice oniriza. Fuma, bebe e permanece sendo: ela mesma. Maria Alice é uma. Três maridos, nenhum filho. Não tinha quadros em casa, nem tapetes. Quando foi morrer, não disse até logo, foi logo de adeus. Maria Alice é chata. Maria Alice é real.

2. Asas vitrais

Enquanto todos dormem, 
uma nova cidade acorda. 
Com luzes plenas de mariposas incandescentes. 
Amanhã cedo, 
mariposas mortas debaixo de um poste
Formarão mosaicos de asas semi-úmidas. 
Mas todos ainda dormem, 
Em seus escritórios.

3. Caminhões de lixo só chegam às 6 da manhã

Não consigo dormir, senão por cansaço, ou seja, só depois das três da matina. É o Umberto que ronca. Ronca e faz tremer os móveis, e inclusive, os cômodos de toda a casa. O som remete algo entre cortadores de grama e caminhão do lixo.  Eu poderia me separar de Umberto, mas ele acorda cedo e faz meu café, assim, posso dormir mais um pouco.

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