terça-feira, janeiro 14, 2014

O dia em que não entrei no shopping

O texto em que escrevi mais aspas na minha vida

Nunca gostei de shoppings. Sempre achei um lugar sufocante em uma realidade inventada, estilo "The Sims". Tenho preguiça de espelhos e fobia de gente consumista. Mas eu frequento shoppings. Sou cidadã-brasiliense-branca-classe-média e, mesmo me contradizendo, consumidora.

Para manter os cidadãos-classe-media-branca (vide eu) protegidos de indivíduos-de-cor-parda-ou-negra-pontecialmente-baderneiros, as lojas resolveram mudar das ruas para esse complexo, chamado shopping. E os cinemas também! Claro, pobre não tem direito de assistir a filme não. Os empresários, com sua "esperteza", conseguiram ainda segmentar os shoppings em categoria de luxo. "Desse tipo, periferia nunca passa perto", pensaram.

Com a chegada do natal, veio a onda dos "rolezinhos" no shopping. Encontros marcados previamente nas redes sociais, o que gerou grande aglomeração nos shopping. Os estabelecimentos, temendo bagunçam resolveram proibir a entrada de menores de idade, ou de grupos grandes e "suspeitos".Não é questão de defesa ou recriminação, é simplesmente um direito estabelecido em constituição, o de ir e vir. Shoppings são lugares privados, tudo bem.  Só que qualquer um pode entrar, menos se tiver "jeito de bardeneiro."Mas o que diferencia um potencial consumidor de um "mal-elemento"? A cara? a cor? a roupa? ou o chinelo - "uma falsificação barata de havainas"

A questão vai muito mais além do que a proibição de baderna no shopping. Primeiro foram as manifestações, em que "vândalos" (com muita aspas e ironia) quebravam portas dos bancos, mas sem saquearem. E agora são os "rolezinhos" em shoppings de luxo. O que será que essas pessoas estão querendo nos dizer? Afinal, é bagunça por bagunça e isso é caso de polícia? "Vamos combater com discriminação e racismo!"

Vejo os "rolezinhos" como um grito por algo, uma manifestação, se fosse na América do Norte, seria um happening - como desses que acontece na Europa em que todo mundo tira roupa na praça ou no shopping, e os senhores da classe média aplaudem: "Que lindo! Que lindo". Mas se junta muito pobre, com ou sem roupa, é motivo de repressão, porque é claro que vai ter roubo e "baderna" no meio.

Tem algo maior por trás desses rolezinhos, desses encontros. E tem algo maior também por trás da classe-média branca e elitizada que se nega a frequentar os mesmo lugares que outros "tipos de gente". A segregação e o racismo ainda reinam. E o desejo de pertencer a uma classe consumista também.

Ps: Convoco a todos para um rolezinho no shopping Iguatemi. Juntando Varjão e Lago Norte. Aí quero ver a imprensa, os empresários ficarem loucos. Podemos ir paquerar, tomar um sorvete, ou só ser preso mesmo. Mas se tiver galera com bolsa da Gucci, isso não vai acontecer. Levem suas bolsas, por favor.

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