segunda-feira, novembro 18, 2013

Poços d'olho

Maria Cláudia tinha água nos olhos quase sempre. Um ml em cada olho, os cílios de vaca e as pestanas baixas. Não chegava a ser nenhuma Capitú, mas era sim uma dissimulada e as pálpebras semi-cerradas, como se espiasse de maneira blasé quem passava pela frente.
Me apaixonei pela metade da íris quase negra de Maria Cláudia. Tinha muito medo que ela piscasse, ficava ali, por um fio de chorar, eu sempre receoso. Era assim, no começo, amor e receio. Depois aquela bobajada toda de mistério se acaba. Não tinha mais questionamento nenhum, e o mal de Maria Cláudia era um mal que nenhuma outra mulher tinha: Maria não me irritava. Não perguntava onde eu ia. Nem queria saber sobre a quinta do futebol. Nem o por que de eu chegar tarde. Ou de onde veio o novo terno. Não queria saber de ligações. Não mexia no meu celular. Maria Cláudia era uma desinteressada.
Eu lhe provocava. Ela me entendia. Eu não compreendia. Insistia. Todo santo dia, apesar de nem todos os dias serem santos. Foi se entrevando certa raiva em mim, como um consolo por ter uma mulher tão boa. Boba ela não era. Pois os olhos continuavam se enchendo. Não sabia quanto mais ml's caberiam dentro duma poça d'olho.
Maria me beijava e me abraçava como se eu fosse o melhor homem do mundo, mesmo eu sendo o pior. Eu era bom antes de Maria, mas ela não sabia brigar. Eu fui obrigado a amar Maria ao ponto de matar.

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