quarta-feira, julho 10, 2013

O ego maior que a fome de foder: um ensaio sobre incompatibilidade do amor livre diante da vaidade e moralismo pós-modernista


Ensaio para aula de jornalismo literário. Poderia ficar bem melhor, porém não tive tempo suficiente de leitura para criar referências e poder embasar melhor meus argumentos. Serve, pelo menos, como indicação de bons autores.


Refleti muito antes escolher esse título. Após ler algumas cenas eróticas em Philip Roth, Bukowski, Henry Miller e Gay Talese , a palavra ”foder” seria apropriada – o meu recalque moralista, no entanto, questionou-se se era adequado utilizá-la para um ensaio. Filha de um pai conservador e uma mãe evangélica, é aceitável que haja resquícios de repressão no superego. Lutei contra o ímpeto puritano, e decidi colocar a palavra mesmo assim. Não há termo mais natural para falar de amor livre e moralismo do que esse. 

A Revolução Sexual na década de 1960 e 1970 pregava o amor livre e liberdade, 40 anos depois nada mais comum do que casar (e se separar, idem). A humanidade sempre a frente de tempos passados e retrógrada diante do futuro, mas há quem diga que o tempo é cíclico e os valores também. De qualquer forma, os homens (e mulheres, como o feminismo orienta) continuam com vergonha de suas “vergonhas”, mesmo que elas façam parte das próprias pessoas. Desde sempre, as regras sociais perseguem os humanos, e não poderia ser diferente diante do “mal-estar”, como diria o próprio Freud, de se viver em sociedade. A religião tem bastante culpa no quesito neurose. Primeiramente por ter cunhado o termo culpa como pecado. Obrigado Deus por ter nos dado a dádiva de eternos juízes de nós – é uma contradição só. 

Nada nasceu por acaso. A ideologia do “amor livre”, liberdade e a revolução sexual foram ideias plantadas em um útero, de uma mulher que não quis abortar por vontade própria, gerado por uma placenta envolta as filosofias marxistas, existencialista de Sartre, psicanalíticas de Freud e depois Reich , o feminismo e o surgimento da pílula. Voilà, algo estava fora da ordem. A sociedade americana pós-guerra ainda carregava em si o puritanismo inerente às famílias que respeitavam a moral cristã. Nada mais óbvio do que a repressão. É o que freia, dissimula, oculta, mas não elimina. No sentido da psicanálise, é o processo que tenta sumir com uma ideia ou um afeto, um conteúdo inoportuno da consciência, por isso muitos homens acordam excitados diante de sonhos, meras reproduções dos resquícios do inconsciente. 

Sob os aspectos midiáticos, não foi diferente. Muitas publicações foram proibidas por serem consideradas indecentes para época, entre elas o livro de Lawrence D. H, o "Amante de Lady Chatterley" publicado e banido no mesmo ano, 1928. O romance conta a história de uma jovem burguesa que ao se afastar do marido pós-guerra, se apaixona por um soldado e começa a ter um caso com ele. Com cenas de sexo altamente descritivas, Lady Chatterley causou grande impacto na época. A editora teve de fazer um grande esforço, até que na década de 1960 o livro foi finalmente liberado. Antes disso, revistas semanais eram vendidas embaixo dos panos, depois passaram a ser proibidas, por conterem cenas obscenas ou impróprias “segundo a moral” da época. Se a moral é algo que muda de acordo com o tempo, ela não existe, é resultado do medo de cada ciclo. 

Em 1957, os jornais já noticiavam a possível extinção das revistas que estampam mulheres nuas nas páginas. O desejo reprimido não poderia nem ao menos se satisfazer por meio fantasias masturbatórias, como era de costume naquela época e sempre. O livro Comportamento Sexual no "Macho Humano", mas conhecido como "Relatório Kinsey", mostrou nos anos 1950 que quase todos os homens se masturbavam, mas isso era uma coisa “terrível” de se dizer. O zoólogo Alfred C. Kinsey, responsável pelo estudo, era considerado um louco, mesmo quando alegava as intenções meramente científicas. Os rapazes compravam a revista com a desculpa de lerem os artigos e reportagens. A Playboy foi a revista que mais se destacou na época. Com Hugh Hefner na direção, um homem que tinha curiosidade pelo sexo apesar do puritanismo presente na família cristã e conservadora em que nasceu. Mas quem dera a impossibilidade de relacionamentos libertários estivesse apoiada tão somente na repressão puritana.

Diferentemente de Freud, o médico e também teórico da psicanálise Wilhelm Reich acreditava em uma sociedade sem repressão, só que para ele isso jamais aconteceria no sistema capitalista. O amor livre jamais seria possível dentro de uma sociedade agressiva, em que a premissa básica é a "dominação do homem pelo homem". De certa forma, Reich pode ter razão. Em um contexto em que a condição de propriedade, o “eu” e a exploração do outro reinam, seria impossível imaginar a hegemonia do amor livre – relação que tem como essência a desposse. Mas será que o homem é aquele mesmo de Rousseau corrompido pela civilização? Ou é o cara de Freud cheio dos demônios e egoísmos que já nascem prontos na mente humana? O “monstro de olhos verdes”, como Shakespeare certa vez denominou sentimento mesquinho e avarento chamado ciúme, assombrou até mesmo casais moderninhos como Barbara e John Williamson, contou Gay Talese no livro sobre o período de revolução sexual intitulado "A Mulher do próximo". 

Barbara sentiu-se extremamente constrangida ao ouvir o marido transando com outra mulher, mesmo com seu consentimento – pôde então entendê-lo após transar com outro homem também. No relato dado a Talese, Barbara descreve a sensação de transar com um homem diferente como um alívio e foi daquela forma que ela percebeu o quanto o amava. No entanto, parece mais um troco. “Ele transou com outra, eu também, então estamos quites”, dizia o inconsciente. Se o dela não disse isso, o meu diria. Por que o estranhamento inicial então? 

Não acredito que os comunistas sejam menos possessivos quando o assunto é relacionamento. Pode-se até pregar a ideologia da “desposse” e estarem dispostos a experimentação. Mas meu pensamento pertence a ultrapassada análise freudiana de que nascemos com certos defeitos, um deles é o ciúme, esse sentimento pavoroso que mata até mesmo o cerne do amor: o simples fato de desejar bem ao próximo. De qualquer forma, a procura é sempre por condições melhores das relações e sociedade, é preciso, no entanto, reconhecer certos moralismos, utopias e a própria essência do homem como animal. A dicotomia eterna: o ser pensante e o pulsionado selvagem. 

“O ciúme é só estrume do amor”, cantou Caetano Veloso. O ciúme é atemporal. Povoou filmes de Almodóvar e Hitchcock; as músicas de Chico Buarque; Dom Casmurro de Machado de Assis; Medéia na Grécia antiga; e povoa diariamente os dias de quem ama. Os comunistas definitivamente não estão imunes, embora Chico e Caetano já tenham abandonado essa ideologia há algumas décadas. A palavra ciúme deriva de zelo, zelumen do latim e também da palavra cio, ou seja zelo de amor. O ciúme advindo da possessividade é aquele que perturba a mente do cônjuge pelo medo de perder o outro. É resultado do amor romântico – a felicidade se sustenta no outro e não na conquista pessoal. Com a valorização cada vez maior da individualidade, as pessoas tornam-se menos ciumentas, porém, cada vez mais narcisas. O ciúme já não é aquele tradicional de morrer ou matar pelo outro, mas de ter algo “bonito” a se mostrar, de ter um relacionamento, de poder postar uma foto do jantar romântico no Instagram. É um ciúme vinculado a vaidade, que beira a inveja. Não é a perda do “alguém”, mas o que aquele alguém proporciona e como aquele alguém satisfaz o ego que importa. É o ciúme que Barbara Williamson sentiu ao ver o marido com outra, o ciúme que desapareceu assim que ela conseguiu satisfazer o ego, no sentido mais popular do termo, a vaidade. 

Redes demais confundem sentimentos e pessoas. Não se sabe mais quem é quem e nem quem é amigo ou namorado ou amante. Todos unidos pelo o mesmo ideal de mostrar como as vidas são maravilhosas, e os cônjuges participam delas. Exemplo é um site de namoro falso em que é possível “alugar” namorados virtuais. Os parceiros fictícios atualizam o status para “namorando” no Facebook. Além disso, comentam os posts do namorado temporário. A qual nível de ridicularidade chegamos? Se antes se casava por interesse ou por parcerias familiares, hoje se namora por fotos no Facebook. Simulacros de uma realidade em que acreditamos fielmente. Narciso se afogou em água, nós nos afogamos em telas. É o egocentrismo sem perspectiva para o fim. Por mais que a pessoas se digam modernas, as carências são como ervas daninhas – se adaptam aos contextos atuais, crescem e florescem. As informações simplesmente bombeiam e de repente todos somos cultos, bonitos, felizes, enamorados - por nós mesmos. Narcisismo destrói a perspectiva de amor, seja ele livre ou convencional – não pode nem ser dito como amor-próprio já que se torna obsessão. 

Na sociedade virtual, o amor livre é confundido facilmente com o “amor líquido”, termo cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman no ano de 2012. O primeiro propunha relação estável entre casais, porém, com consentimento mútuo. Ambos poderiam ter relações fora do casamento e isso não abalaria o que um sente pelo outro. Já o amor líquido é resultado da era digital. As novas tecnologias trouxeram o afrouxamento das relações afetivas. Em um mundo em que a pessoas se comunicam
mais pela internet do que pessoalmente, é difícil desenvolver afetividade e relações duradouras – qualquer um pode ser deletado a qualquer momento. A pós-modernidade trouxe novas ferramentas as quais as relações foram obrigadas a se adaptar. Em “Amor Líquido”, Bauman disserta sobre o estranhamento das pessoas diante de outras pessoas. 

Os relacionamentos também estão cada vez mais efêmeros, não existe amor. O amor é a gênese de algo maior entre dois, isso não existe atualmente, pois não há tempo para gerar nada. As pessoas trocam de “amor” como se ele fosse uma mercadoria. Se não está bom, troca por um modelo melhor – assim como fazem com seus ipods, gadgets – é o narciso que volta a protagonizar as nossas vidas, o egocentrismo, a falta de compaixão. A perspectiva romântica foi trocada por uma visão dita como “libertária”, mas que na verdade não passa de um ponto de vista superficial do que é o amor. Transa com um, conversa com outro e toma café com o terceiro em busca de pessoas perfeitas, já que a perfeição é alcançada no simulacro virtual – porém nos encontros da vida cotidiana, tátil e física, ela jamais é alcançada. A frustração permanece, no entanto, o estilo de vida “libertário” consola os humanos que desaprenderam a amar. Bauman cita também uma nova expressão, os “relacionamentos de bolso”, já ouvi definição parecida como “pau amigo” – é aquele tipo de relação que se mantém por um longo período mas de forma leviana – ela pode ser reciclada a qualquer momento a depender da vontade dos envolvidos. 

Tanta indiferença é o resultado do medo de se sentir só. Se antes o casamento, o namoro acomodado acontecia por conveniência ou consolo, a falta de laços efetivos é consequência do sofrimento. Temos medo de sentir e por isso o apego é dispensado, o afeto, o amor. Não se pensa mais em qualidade, porém na quantidade de relacionamentos, é o consumismo exacerbado que foi transferido para esfera amorosa. Quanto mais opções tiver, melhor. 

Apesar da filosofia liberal, ainda se vive o moralismo puritano, mas de forma recalcada. Basta frequentar as mesas de almoço de uma família de classe média no domingo. Ninguém é contra os homossexuais, mas também não querem os ter na família. Gays que desde da época da revolução sexual já lutavam por direitos e até hoje sofrem com homofobia. É um moralismo diferente que não se admite como tal. É intitulado como “questão de respeito”, ordem – apoiados em valores que não
condizem com o contexto da nossa realidade. Porém, como são “ocultos”, há pouco a se fazer sobre eles, a não ser incentivar a mudança de uma cultura de pensamento. Ainda existe muita gente com pensamento machista. 

O moralismo que ainda permanece no século XXI é a repressão cotidiana em crianças – obrigadas a guardar a espontaneidade sexual. No entanto, quando envelhecem, são constantemente bombardeadas por sexo na televisão, no cinema, na publicidade. A vida é uma incoerência sem fim. Enquanto o ser humano negar as pulsões de vida e de morte, continuar-se-á preso em resquícios de uma época passada. O primeiro passo é admiti-los como parte de nós. Só que não se pode confundir a liberdade sexual com o descarte de relacionamentos e a repressão do amor. O amor por si só não é ruim, perdemos a fé nele sem saber que sexo também é amor, é a pulsão de vida, a energia vital.

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