quarta-feira, maio 29, 2013

Oráculo - o perfil de hugo rodas parte 2



    Hugo tem crenças de todos os tipos, mas a melhor delas é a em si mesmo. Dotado de uma autoestima que chego a invejar, ele não é metido, mas autossuficiente. “Não gosto muito de considerar que exista uma energia superior a minha ou de qualquer pessoa, acho que o mais importante no ser humano é esse deus que cada um carrega, e que é realmente dono de sua fé. Que é dono de sua fé. É diferente de quando você esta pedindo pra alguém. Você não tem de pedir pra alguém, você tem de pedir para si mesmo”, filosofa. Entretanto, é munido de vários saberes “não convencionais” além da astrologia, Hugo também é habituado com o tarô. Disciplinado por um pai de áries e uma mãe de virgem, em uma época em que astrologia dava vergonha, a pergunta mais estúpida de se fazer era: de que signo você é? “Mas tive uma relação muito forte dentro de mim quando eu comecei a entender a matemática dentro disso. Quando comecei a trabalhar com numerologia por causa do teatro, aí realmente começaram a aparecer coisas importantes através de números. A astrologia me interessou primeiro no colégio. Adorava o estudo do céu, das estrelas. Através da astronomia, da cosmografia, eu comecei a entender a matemática e aí foi uma paixão direta”, diz, sem nenhuma vergonha.
    Não só oráculo pelas ligações com o espiritual, mas como dono de opiniões que influenciam a todos e que já deram margem para a produção de inúmeros trabalhos acadêmicos, e até um documentário, Palco dos sonhos na companhia de Hugo Rodas. “Foi simplesmente sensacional, no começo ele estava meio receoso, acho que com medo talvez, mas depois se soltou”, diz Marina Simon diretora do média-metragem. Difícil imaginar Hugo Rodas receoso. “Antes de algumas gravações ele até aparecia meio alegre demais“, conta, sem saber se era a bebida ou o estado de espírito do diretor em determinado dia.
    “E o Hugo foi isso, foi um cara que me pegou em um lugar e me largou em outro completamente diferente. Mexeu com as minha certezas, mostrou coisas que eu não sabia”, contou Juliano Cazarré a Marina. “Nunca mais vou esquecer aquela figura com cabelo na cintura, batendo um tambor na frente de várias outras pessoas, todas loucas. Colocando muito movimento, muita dança no teatro”, disse a atriz e jornalista Carmem Moretzsohn. Entre tantos depoimentos, a verdade absoluta em torno de Hugo Rodas pode ser definida em uma única palavra: provocação. Ele provoca constantemente quem lhe olha. Ele penetra no fundo dos olhos e de alguma forma tenta desvendar o outro, seja pelo prazer, seja pelo trabalho de criar personagens. Ele me provoca e desconserta. Me diz sobre a diferença de ser o entrevistador e o entrevistado e que a provocação o levou a ser o entrevistado. Sinto-me constrangida, Hugo abre um sorriso. Ele diz que meu pai não ia gostar de saber o que significa eu ter ascendente e a lua em escorpião.  Pergunto por quê. Ele se contenta em responder com duas palavras: “altamente sexual”.
    Suas peças são completamente absorvidas pelo sexo, pelo toque, pela juventude, pelo frescor – nada mais freudiano. Por isso, e por questões práticas, Hugo opta, na maioria de seus trabalhos, por atores jovens. “Pero eu sempre me relaciono muito melhor com as pessoas jovens, por exemplo.  Isso é normal, se você conhece meu teatro e sabe quem eu sou, você sabe que alguém de 70 anos não sai dando cambalhota por ai. Na realidade, não é isso, é uma coisa de cabeça mesmo, é uma forma de você visualizar o teu trabalho. Não tem nada a ver com a idade, não tem nada a ver comigo. Tem a ver com um trabalho que é meu. Pero non comigo”, explica. Ele acrescenta sem nenhuma soberba que normalmente são as pessoas que escolhem trabalhar com ele.
   Os jovens parecem topar o desafio que é trabalhar com Hugo Rodas. Acompanhei exercícios no Núcleo de Dança onde o grupo atual do diretor costuma se encontrar. Ele senta de costa para o espelho. Coluna ereta. Coluna eretíssima. Sete atores têm de atravessar a sala com movimentos que saiam exclusivamente do quadril – curioso, pois Hugo sofreu um acidente de carro há sete anos que lhe deixou com limitações nos movimentos do quadril. Eles se contorcem. Hugo fala de maneira autoritária: “Do quadril. Do quadril, vocês não vão me fazer demonstrar, não é?”, questiona. A reação imediata dos atores é de redenção e existe ali uma relação de mestre e aprendiz. “É    uma questão parecida com mestres, como os mestres orientais, cujo aprendiz confia e faz. Sem muitos questionamentos”, comenta o ator Nobu Kahl. Para Hugo Rodas, está evidente o que são os exercícios, mas para os atores ainda não. Isso causa uma imensa atmosfera de constrangimento na sala. Agora, o exercício é ir até o outro lado da sala imitando uma vaca que se movimenta a partir de movimentos dos quadris.  Hugo coloca a mão no queixo – não dá para saber ainda se dessa vez os pupilos acertaram. Ele faz um olhar de contentamento. Sinto que às vezes há uma falta de comunicação, ele acha algo medíocre e diz “ok”. Mas quando o objetivo é atingido, Hugo diz “muito bom”.
    Hugo demonstra uma performance com um pano vermelho. Ele desliza sobre a face o tecido de maneira que seu rosto se torne também avermelhado – é uma espécie de filtro. Os movimentos são minimalistas por questão estética ou limitações práticas? Ele mexe os braços e desenvolve expressões faciais em questões de segundos. Desejo ter visto Hugo Rodas atuando – tenho a impressão de que ele era melhor ator do que diretor. É uma experiência visual bonita. Um senhor, um pano vermelho, movimentos suaves. Chega a vez dos atores. Eles criam trilha sonora para cada performance. Dali para frente fico esperando pelos xingamentos, pela pegação na bunda, mas eles não vêm. O máximo que escuto é “vaca” e “puta”. Talvez ele tenha se contido na minha presença. Mas mesmo quando xinga, tem um tom de autoridade que não é desrespeitoso. São formas de tratamento, como disse Nabu: de mestre para aprendiz. ”É complicado, às vezes saio do ensaio querendo nunca mais ver o Hugo, mas é só dar um tempo que logo me recupero e volto pro trabalho”, diz. Parece que a impressão é a mesma diante de outros atores. “Às vezes ele não consegue externalizar suas ideias mirabolantes, e se você não entende ele não te entende, não aceita. No entanto, quando você se mostra esforçado, dá bom resultado”, diz Isabella Pina, que também trabalhou com o diretor.
    Rodas é alguém que planta seu próprio manjericão. Gosta de beber. Gosta de beber bebida alcóolica. Como filho descendentes italianos, visita pizzarias aos finais de semana, principalmente a Fratello e a Valentina. Una persona repleta de várias personas – como qualquer outra. Alguém que desenvolveu seu próprio dialeto, um portunhol descabido de regras que se manifesta por momentos: alguns dias Hugo acorda mais brasileiro, em outros mais uruguaio. É a mescla dum sorriso brasileiro com a austeridade de alguém de fora. “Mas era como como eu dizia. Puxa, mas deve ser uma coisa de samba mesmo, os brasileiros sofrem com samba, nós sofremos com tango é muito mais operístico, é muito mais dramático, é muito mais tudo. Vocês têm um humor e una creatividad para levar la vida que nós não temos. Nós uruguaios não temos esa alegria de viver. Somos personas acostumadas a sofrer. Diferente maneira de pensar, de sentir la cosa. É uma cosa magnifica do povo nao?”
   
  




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