quarta-feira, maio 29, 2013

Em busca de um senhor Hugo - parte 1

  - It’s open!

    Por um instante pensei que Van Gogh estaria falando comigo, já embasbacada pelo imenso pôster de uma das obras do pintor em frente à porta. Abri- a e dei de cara com uma mesa de vidro, anteparo que sustentava pelo menos 50 garrafas de bebidas alcóolicas. A luz indireta levava a sombra das garrafas à parede e criava, de certa forma, um ambiente propício a mistérios. Antes que me perguntasse qualquer coisa, desatinei a falar:

● Olá, tudo bem com o senhor? – escutam-se risos, muitos risos
● Meu nome é Bárbara – continuo – Estou à sua procura já faz quase uma semana. É para um trabalho de jornalismo. Preciso saber tudo da sua vida.

    Ele veste um casaco azul escuro, parece aqueles de lhamas que se compra no Peru, vem em minha direção num andar meio cansado e me cumprimenta. Eu lhe daria 64 anos, tem os cabelos grisalhos e a pele morena, parece ter sido um jovem bonito – algo que consigo confirmar após ver fotos antigas do ator. As mãos estão quentes e são macias – já as minhas estão geladas. É simplesmente acolhedor, abre um sorriso. Fico reflexiva. Penso em tudo que me disseram sobre este homem antes de vir procurá-lo. “Ele é uma pessoa difícil”. “Não seria melhor achar outro personagem?”. “É um diretor que usa a palavra vaca para tratar suas atrizes”. “Já ouvi dizer que ele pega na bunda dos atores”. Mas o sorriso dele não traz nada de malicioso, além de alguma compreensão, parece mesmo o jeito de sorrir de uma pessoa idosa.
    Na sala estavam várias pessoas com menos de 25 anos, a não ser Hugo Rodas. Eles planejam um novo espetáculo. São os mesmos jovens da última peça encenada em Brasília, “Ensaio Geral”. Todos sorriem muito e se sentam cada um à sua maneira, desprendidos da linguagem corporal convencional: pernas abaixo e mãos comportadas. Há quem arrisque até posições de yoga. Eles riem por conta da forma de tratamento que usei com o diretor. “É engraçado isso de você chamar ele de senhor. Nada a ver”, disse um dos atores. “É um tratamento tão fora do meu hábito”, completou Hugo, ainda sério. Quem mesmo chama Hugo de senhor? Só os desavisados. Entretanto, seria mais do que normal para uma pessoa de 74 anos,  em breve 75. O dramaturgo não se contém com a idade, não acredita em cronologia, mas em vida esparsa. “Eu não sinto que sou idoso. Não é que eu não seja. Só não sinto. São valores que tem a persona. Ai, estou velho não posso fazer isso. Ai, estou velho não posso salir de short. Ai estou velho não posso salir nu na varanda. Saio nu na varanda e pronto. Eu não tengo a censura de una persona da minha idade. E adoro sair de noite, adoro jantar fora, adoro sair a bailar. Adoro dançar”, diz.
    Hugo pode até não ter a censura de alguém de 74 anos, mas alguns hábitos sim. O teatrólogo não possui celular, o que dificultou muito a minha vida. Não sabia como encontrá-lo. Pois Hugo Rodas é quase tão ocupado quanto um executivo bem-sucedido de 40 anos. São ensaios do novo projeto, viagens a Goiânia na preparação de outro espetáculo e a participação na pós-graduação de artes cênicas na Universidade de Brasília. “Na realidade estou com três espetáculos. De manhã, trabalho com Marcus Mota, à tarde trabalho no laboratório de dramaturgia imaginária da UnB e vou a  Goiânia às sextas”, conta. Marcus Mota, companheiro assíduo de projetos e espetáculos, diz que a cabeça de Hugo funciona como uma espiral de ideias. Professor de artes cênicas da Universidade de Brasília, Marcus conheceu Hugo no ambiente universitário. “É maravilhoso poder trabalhar com ele”, diz. Ressalta, no entanto, que por vezes Hugo não consegue transpor os devaneios mentais aos atores, o que pode causar um estranhamento para quem trabalha com ele. “Fora isso, ele é uma pessoa divertida na intimidade”, comenta. “Na hora do trabalho, prefere vestir a persona de mestre, alguém que está ali para coordenar tudo”, finaliza. E é por tantos trabalhos que Hugo é alguém acessível e ao mesmo tempo difícil de encontrar.
    Quando lhe propus o perfil, a primeira reação foi a de espanto. Logo em seguida veio a pergunta: “De que signo você é?”, lhe falei que era pisciana e ele gargalhou numa risada uruguaia intercalada por silêncio. “Você vai é me ferrar, nem pensar”, brincou. Logo pediu que eu me retirasse, pois precisava conversar “a sós” com o grupo. Eu sai na esperança de encontrá-lo em breve. Mal sabia que além de empecilhos como a falta de celular, a falta de tempo e a falta de compreensão do seu portunhol eram quase nada diante dos esquecimentos de Hugo Rodas. Marcarmos a entrevista para uma segunda-feira, após sua aula no Laboratório de Cênicas. Cheguei à Colina, quadra residencial onde moram os professores, liguei antes, mas ninguém atendeu. Então bati na porta. Ele gritou. “ Quem está?” “Quem está?”. Eu disse. “É Bárbara”, como se isso fosse suficiente. “Bárbara?” – com todos errês bem pronunciados. “Sim, Bárbara, a jornalista”, completei. Meia fresta de porta se abre, e posso ver a cabeça e parte do peito nu de Hugo Rodas, ele me olha com uma cara de espanto. “Ai, habia completamente esquecido”, disse. “Estou a salir, no pudemos agora, marcamos otro día, ok?”. Aceito, pois qual alternativa tenho? Não sei se o esquecimento foi proposital ou não. Mas que isso já aconteceu com outras pessoas que haviam combinado coisas com o  teatrólogo – tanto jornalistas, como estudantes: “ele marca e esquece”, me disseram.  Talvez ele seja mesmo esquecido, ou, um tanto excêntrico. Talvez seja para testar o interesse das pessoas por ele.
    Talvez fosse mesmo o tanto de informação acumulada naquela cabeça, haja memória. Desde criança,  o menino geminiano de Juan Lacaze recebia aulas de piano, desenho, francês, inglês e italiano. Não à escola, pois os pais acreditavam que seria melhor educado com aulas particulares. Filho único, Rodas passou a sentir sozinho, imerso num meio de adultos. “Estudava desde os seis anos piano, solfejo, desenho, italiano, inglês, francês, era um saco. Era um saco e tanto. Era una cosa de não viver a infância. Era tanto tempo trabalhando que não consegui falar direito nem se quer inglês. Foi meio dramático essa época. Toquei piano até dezoito anos, fiquei com trauma, só voltei a tocar muitos anos depois por conta del teatro”, conta. Hoje, em seu apartamento pode-se notar a presença de um piano branco que carrega nas teclas a partitura de Chopin.
    Os pais trabalhavam em uma fabrica têxtil em um bom momento no Uruguai, o que lhes permitiu darem educação de qualidade ao filho. A infância foi uma infância de pouco brinquedo, de pouca rua, uma infância de adulto. Quando começou a ficar adolescente, se transformou em um menino rebelde, um menino porra-louca. “Não podia ser atacado, pois não sabiam como classificá-lo, o que ele era. Ele era uma ‘raridade’, um ‘sem vergonha’ que começou a se divertir como um louco. E a sofrer também, porque tinha um caráter apaixonado e uma bissexualidade que colocava para o rapaz diferentes questões”, escreveu Cláudia de Souza em sua dissertação de mestrado O Garoto de Juan Lacaze, a invenção no teatro de Hugo Rodas. Como conseguia passar no ensino médio sem estudar por causa da preparação que havia tido quando criança, praticamente cursava sem estudar, foi fácil até chegar à faculdade. “Mas na faculdade não foi fácil não. Pô, estamos falando dos anos 50, non? Era uma revolução completa: contra a família, contra o Estado, contra a desigualdade, etc.”, relembra. Coça constantemente o nariz, numa espécie de tique. Ele olha nos meus olhos e posso sentir a nostalgia dos tempos de adolescente, me sinto um pouco mais próxima. “Vivi como adulto muito antes do tempo. Entrei na faculdade com dezesseis anos”, disse. Ele gesticula muito com os braços, e a coluna permanece sempre ereta, nenhum vacilo. “Era para eu ser médico, mas desisti, depois fui tentar odontologia, então acabei me formando em protético dentário”, conclui. Nesse tempo, Hugo já tinha saído de Juan Lacaze para ir estudar em Montevidéu. Ele morava em uma república com familiares de familiares. Hugo Rodas começou a entrar em contato com a movimentação artística da capital, eram óperas, teatros, espetáculos de dança.  Anos de 1950, era a chamada “época de ouro“ no Uruguai, era momento de efervescência do teatro. “Além do mais tinha o cinema, eu era louco por Fellini, meu teatro tem muito de cinema”, diz. Não só na parte estética, mas também no conteúdo, assim como Fellini, Hugo Rodas faz críticas sociais sem perder o lado lúdico da mise-en-scène.
    Basta lembrar- se de Rei David, coprodução com Marcus Mota. Um espetáculo que ironiza o David descrito na Bíblia – a peça, porém, não se abstém de todas as formas jocosas possíveis. Sobre religião, ele se contradiz. “Tengo todas religiões possíveis. Sempre me bastou a católica para acreditar em algo. Soy una persona de fé que é una cosa diferente, não de religião. Sou uma pessoa de rituais. Tenho meus rituais básicos. Acordo e faço as mesmas coisas, sou super ritualístico. Me preparo da mesma maneira para ir dar uma aula sempre. Faço a mesma coisa sempre”, diz em seu portunhol jamais esquecido, mesmo com mais de 30 anos no Brasil.  Começo a questionar-me como alguém tão liberto de paradigmas e pudores pode ser ao mesmo tempo ritualístico, ambicionado pela perfeição, pela limpeza. Lembro-me então da essência do teatro, que nasceu como pretensão ritualística e também uma forma de exaltar a religião. Diferente do cinema, a arte pagã, o teatro tem suas raízes com o espiritual, com as facetas de um mundo além, e acho que era isso o que Rodas estava tentando me explicar. “E eu tento sempre ser limpo, no meu trabalho, nos meus gestos, no és algo de perfeição, mas de detalhe”, completa.  Hugo não poderia concordar mais com o teórico Constantin Stanislaviski: “ A arte não está no geral, mas no detalhe”.
    Como protético dentário, Hugo Rodas volta a sua cidade natal, trabalha durante algum tempo, mas desiste, por estar inteiramente ligado ao teatro. “Nessa época eu já fazia aula de dança escondido”, conta. Os pais ficaram completamente abismados diante da nova perspectiva de Hugo -- a vocação artística e a orientação sexual. “Para quem te sonhou médico nunca vai aceitar que você seja ator”, diz. Ele arranja um emprego público na capital e trabalha também como ator. A sua busca principal é pelo teatro independente, sem fins comerciais, baseado na organização coletiva, como é o caso do grupo Teatro Circular, do qual Hugo fez parte na década de 1960. Era um teatro que visava o corpo como cenografia, por isso contemplava a dança, o movimento. “Eu também dançava num conjunto folclórico que chamava Celito.  Tinha aula de dança contemporânea. Dancei muito tempo na televisão. Fazia programa folclóricos na época. Depois entrei no teatro definitivamente, e a vida mudou”, diz.  A vida mudou porque a partir dali Rodas se entregou completamente ao teatro, deixando para trás a vida em Juan Lacaze, amigos e até alguns amores. Ele se lembra com pesar, porém sem arrependimento. Alonga as mãos, a camisa é comprida suficiente para não deixar que a barriga fique à mostra. “Espera um minutinho”, ele diz e sai para o quarto. Só agora reparo em suas vestes. Ele usa um short curtíssimo e roupas claras – estava fazendo a sua ginástica matinal quando cheguei a sua casa. Os móveis são claros e a parede repleta de quadros. Na maioria deles, observa-se figuras humanas. É uma casa de alguém que recebe. Cheia de assentos e bebidas. Limpa, um ambiente limpo.  Tudo em seu devido lugar. Sem copos sujos na cozinha, sem louça pela casa. Almofadas precisamente arrumadas. Parece que ali mora alguém extremamente organizado.
    Aos 28 anos, Hugo Rodas está no Teatro Circular quando encontra a dançarina  Graciela Figueiroa e se apaixona pela proposta híbrida de dança e teatro do trabalho dela. Eles vão para o Chile a convite do Governo, e ficam por lá até a queda de Salvador Allende, instaurada pelo golpe militar e Pinochet. A situação no Uruguai também não era das melhores. A ditadura se fixava por lá. “E quando caiu Allende, a gente não quis se refugiar em outra embaixada para não ficar fora do Uruguai, a gente gostava cada um de sua respectiva família. Apesar de todo o perigo que isso significava, pois o partido politico de lá já estava fora da lei. Foi uma juventude maravilhosa e complicada. Julgado por todos os lados, julgado pela esquerda, julgado pela direita, pelos pais, julgado pela sua tia, julgado pela sociedade, julgado por todo mundo”, disse. Ainda assim, o grupo resolveu retornar ao Chile e foi lá que surgiu o convite para se apresentarem no Festival de Inverno de Ouro Preto. Desde então, não saiu mais do Brasil. Primeiro em Salvador, onde dava aulas de dança. Depois é convidado para dar cursos em Brasília, e por aqui permanece. “Quando vi do avião eu achei incrível, parecia uma brincadeira com casinhas que eu fazia quando criança. Eu vim para dar um curso de 15 dias, depois veio uma chica com una lista maior e fui ficando”, conta, rindo. A relação com a Universidade de Brasília foi fruto do trabalho do diretor na cidade. “Eles me convidaram, me levaram ao ensino.” Nesse sentido, ele ganha o título de Doutor Notório Saber em Artes Cênicas, pela Universidade de Brasília – UnB.  Em Brasília, o diretor começou  ser reconhecido ao longo dos anos. “O primeiro trabalho que foi muito surpreendente pra mim se chamava João sem nome, onde eu pela primeira vez utilizei tudo  que eu sabia com relação ao corpo”, conta. Tudo era feito pelos atores. Esse foi o trabalho que motivou a formação do grupo Pitú  e, consequentemente, a peça Saltimbancos. Grande marco do teatro brasiliense na década de 70, foi o trabalho que afirmou Hugo como teatrólogo.
    Durante todo esse falatório – sim, pois ele gosta muito de falar, me pergunto se Hugo Rodas nunca foi casado, ou teve filhos, ou laços. Ganho uma resposta à altura: “Não, jamais casei, me juntei com quatrocentas mil trinta e duas pessoas. E até o dia de hoje soy totalmente apegado com todas as personas com as quais me relacionei. Nunca acabou nem um relacionamento meu, salvo uno ou dós foram relacionamentos que terminaram. Os outros sempre foram relacionamentos para toda a vida. Você deixa de ser amante de uma pessoa. Deixa de ser o enamorado de una persona, mas você és algo vivo en outra persona. Você cultiva una amizade e una energia que não acaba. Isso não acaba. Acho que isso é uma coisa de saúde mesmo, uma coisa que faz parte de mim. E da minha saúde também. Filhos adotivos tenho vários, tengo netos adotivos. Tenho famílias enormes, mas nada de sangue, são todos do coração”. Ele me explica que seus laços são construídos como redes vivas que vão e voltam.

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