sábado, março 02, 2013

Análise de Noite e Nevoeiro

Assisti este filme para fazer um trabalho da disciplina de Documentário da UnB. Gostei tanto, que resolvi colocá-los aqui - o filme e a análise. Holocausto é um tema por vezes esquecido, mas o desejo ditatorial em grandes líderes nunca morre - o nazismo é apenas um exemplo de onde o totalitarismo pode levar.

Veja o filme:


Dez anos após o Holocausto, o Comitê da Segunda-Guerra Mundial propõe a Alain Resnais um documentário sobre o assunto. O cineasta aceita e chama para compor a equipe Jean Cayrol, que escreve o texto, e Hanns Eisler para fazer a música do filme. Noite e nevoeiro é composto basicamente por imagens de arquivo entrelaçadas por longos planos em campos de concentração nazistas. Este filme revisita, de maneira poética e realista, a memória e história de um tempo sombrio.

O uso de imagens de arquivo neste documentário evidencia como o registro era fato preponderante entre os próprios nazistas. As fotografias e pequenos filmes são impressionantes, no entanto, documentavam que o trabalho estava sendo feito – a preocupação do registro como algo técnico-científico para ilustrar o trabalho dos chefes, generais e SS nos tempos de extermínio. Para os nazistas, as imagens eram parte de um registro e não cabia interpretá-las, eram a prova de que aqueles chefes estavam cumprindo seu trabalho. “Sem discutir, põe-se ao trabalho” – é uma das primeiras frases narradas pela voz over – que vai acompanhar as imagens durante todo o filme. As próprias funções mecânicas, ditas como trabalho ofuscavam a tamanha crueldade, não era permitido pensar, como coloca Hanna Arendt ao exemplificar sua teoria com o tenente-coronel da SS Eichman:

Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência. Se respondêssemos todo tempo a esta exigência, logo estaríamos exaustos; Eichmann se distinguia do comum dos homens unicamente porque ele, como ficava evidente,nunca havia tomado conhecimento de tal exigência.(ARENDT, p.6)


O filme traz poesia no texto e nas imagens coloridas filmadas em 1955. Longos travellings nos campos de concentração vazios dão a sensação de tranquilidade. Diante de uma trilha sonora que conta uma história por meio de seus agudos, sua melodia tranquila cortada por notas dissonantes, vê-se o verde, construções abandonas, aparentemente inocentes. Planos dos campos são seguidos por imagens do início da ideologia nazista: multidões, Hitler, o punho direito para cima. Esses pequenos filmes que antes serviam como propaganda, e agora como registro, já contavam com a estética e linguagem cinematográfica desenvolvidas. Exemplo claro é a imagem dos líderes vistas sempre de baixo para cima, como poderosos, chefes, aqueles que guiam a massa ao objetivo comum: tornar-se uma nação pura. Enquanto o povo, sempre visto no ângulo plongé, dando a impressão de inferioridade, indefesos, ou seja: devem obedecer aos maiores que sabem mais: generais, tenentes, ao próprio Hitler.

A montagem dinâmica e realista dão ao filme um aspecto vivo, a história se conta pelas imagens e o texto as costura de maneira irônica, mas sutil. É o que está presente quando Cayrol disserta sobre os diferentes estilos das casas de vigia no campo de concentração: alpino, garagem, japonês e sem estilo – o texto utiliza da ironia e do banal para a reflexão sobre a construção desses campos. A montagem leva em consideração o ritmo e utiliza o texto e a imagem como complementares, dessa forma o filme não se torna óbvio, mas completo.
Os travellings coloridos se mesclam com os travellings em preto e branco criando a sensação de unidade ao filme. E quando faltam imagens, o texto de Cayron , poeta e antigo prisioneiro num campo de concentração, dão ao imaginário do espectador a ideia da realidade nazista. A câmera percorre os quartos abandonados enquanto a voz fala diretamente com o espectador. “Destes dormitórios de tijolos, destes sonos ameaçados, só conseguimos lhes mostrar um esboço: a cor”, enfatizando o aspecto modernista do documentário, a quebra do simulacro constante na Nouvelle Vague e nos filmes de Alain Resnais.
A voz desaparece por alguns instantes, deixando a música aparecer e criar o ambiente propício para a interpretação das imagens que falam por si só.

Se existe um visível escondido por trás de um invisível, não ser o arco elétrico que o revelará,que o subtrairá ao não-ser, mas ao “por em cena” as palavras, o momento do diálogo entre a voz que as faz ressoar e o silêncio das imagens que mostra a ausência daquilo que as palavras dizem (RANCIÈRE,P. 43).


Além da sensação poética presente no texto, nota-se também aspectos antropológicos, sociológicos e até psicológicos no texto de Cayron – evidenciam o documentário como o estudo de uma época. Seguindo a narrativa da própria história, o filme termina sobre o questionamento inevitável: quem é o responsável? No documentário, a narração coloca voz aos tenentes, aos chefes, aos líderes que dizem: “A responsabilidade não foi minha” – quase em coro.. Hanna Arendt em seu livro Eichmann em Jerusalém diz que a responsabilidade, a obediência e o apoio caminham juntos:

Suponhamos, hipoteticamente, que foi simplesmente a má sorte que fez de você um instrumento da organização do assassinato em massa; mesmo assim resta o fato de você ter executado, e portanto apoiado ativamente, uma política de assassinato em massa. Pois política não é um jardim de infância; em política, obediência e apoio são a mesma coisa. E, assim como você apoiou e executou uma política de não partilhar a Terra com o povo judeu e com o povo de diversas outras nações – como se você e seus superiores tivessem o direito de determinar quem devia e quem não devia habitar o mundo -, consideramos que ninguém, isto é, nenhum membro da raça humana, haverá de querer partilhar a Terra com você. Esta é a razão, e a única razão, pela qual você deve morrer na forca.(ARENDT, P 300,302)


A ideia que se tem sobre essa obra de Alain Resnais vai além deste questionamento e propõe que a humanidade não se esqueça da história. “ Uma aldeia abandonada, ainda cheia de ameaça”. “ Quem de nos vigia deste estranho observatório, para nos avisar da chegada de novos carrascos?”, questiona ao fim. Resnais coloca a memória em prova, em tempos de extermínio Noite e nevoeiro se torna atual. Para Resnais, a história do nazismo não e dos alemães, mas de toda a humanidade.
Bibliografia

ARENDT, Hannah. Pensamento e considerações morais, in: A dignidade da política, Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1993
RANCIÈRE, Jacques , “L’inoubliable”, em Arrêt sur histoire
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras

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