terça-feira, agosto 14, 2012

HD

Ele a fitava de longe, assim como quem não quer nada além de apreciar. Ali, entre duas grandes molduras de cabelos negros e finos. A qualquer vento, tornava-se digna de hospício.
De longe, lembrava um Buñel. Pelo exagero e pela teatralidade lúdica fora do comum a cada movimento executado. De perto, logo se via que de surreal aquela ali não tinha nada.
Sentou-se no banco, o rapaz, a observá-la decupadamente.
Foi quando sentei ao seu lado. Ele cochichou:
- De que vive essa ai? - com medo de que ela escutasse pensamentos.
Respondi com desprezo:
- Sofre de hiperrealismo - como se sofrer fosse estado de espírito e já não condição humana.
Subiu um cheiro de mar tão grande. Quando ela piscava olhos, era um sal que vinha em nossa direção.
De tão real absurda. Aos três anos, quando lhe tomavam o triciclo chorava como se tivesse perdido o amor de sua vida. Aos 20, se lhe prometessem e não cumprissem, berrava como aos três. Estava ali com poros dilatados , a mostra. Era total hiperrealismo, dava pugência em ver.

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