sexta-feira, dezembro 16, 2011

desapaixonar-se

O desencanto é impiedosamente certeiro. Chega de vez. E corta.
Ela me disse:
-Não dá
Mas ontem estava me dando num quarto de motel.
E com o som aberto da vogal, veio um gaguejo momentâneo. Percebi. Os olhos lacrimejados. A coceira no pescoço. Algo a incomodava. Perguntei:
-O que há doçura?
-Eu me desapaixonei - e começou a chorar como louca, a louca.
Na parada de ônibus, os dois últimos ali. Até o pipoqueiro se fora.
E eu disse:
- Quem deveria chorar não sou eu?
Ela me chamou de egocêntrico e insensível.
- O que sabes da despaixão? Nada! Ainda tens a audácia de me questionar.
Perplexo. Quieto. O meu coração esmagado. O meu orgulho ferido. Ela com aqueles ésses todos, pensava que tinha algo de superior em usar a segunda pessoa. A segunda pessoa era eu com certeza, ela a primeira. ELA. ELA. ELA, como sempre.
- O que te fiz mulher?
- Já lhe disse que me desapaixonei, e gostaria que respeitasse.
- E que devo fazer se eu que levei um pé na bunda?
- Você? Você que mal respeita meus desentimentos. Estou desapaixonada. Não sei o que fazer. É difícil sabe? Não, você não deve saber. E nem tem curiosidade para tanto. É como um aborto isso de se desapaixonar. De repente o feto está, logo depois escorre entre as pernas. Vai-se.
Continuei meu pensamento num léxico desconhecido,entre o latim e o amor. Ela só falava.
-Eu perdi algo bom. Eu perdi uma paixão recíproca. De quantas você conhece que são desse tipo? Testemunhe uma verdadeira que seja. Uma entrega. Agora eu não tenho mais. Não te quero mais. Me sinto enfeitiçada às avessas.
Abraçou-me no meio de um temporal brasiliense. O ônibus chegou. o que eu podia fazer? Ela sofreu um aborto.

2 comentários:

Rafael disse...

Muito bom!
;*

Anônimo disse...

muitíssimo bom! Parabéns!