sexta-feira, abril 29, 2011

O clichê do sommelier

Sinto mulheres pelo gosto.
Preciso lamber cada quadrilátero de epiderme para me satisfazer. E se fosse possível o canibalismo, quem me dera morder umas coxas brancas ( ou morenas, quiçá amarelas?)...
Sou apreciador, as trato como vinhos de longa data e preço. Armazeno em bom local, escolho com sabedoria, e finalmente as tomo em língua. Percebo cada nota, todas cruciais. Ah, damas, mulheres.
E como degustador, lhes digo: a variedade é tamanha e prazerosa.
As sensações começam pelo pescoço, onde o toque deve ser suave. Toca-se apenas com a ponta do músculo. O mínimo de saliva escorre. Ela é quente. A ponta da língua sente sabores ainda pouco identificáveis. Sem que o degustador perceba, outra parte da língua encosta na pele. As papilas estão plenamente em contato com as células. Alguns mal amados hão de sentir ânsia ou nojo com essa descrição. A secreção que deveria quebrar proteínas, agora quebra sentimentos. Como é interessante a versatilidade dos homens, dando mais de uma função a tudo que existe na Terra.
Enfim, o pescoço já é espaço delimitado. Passemos para as costas. Minha parte preferida. Nessa hora, minhas papilas gustativas fazem cócegas nas pequenas vértebras dela, e vou desenhando com a saliva o contorno do seu corpo e sua coluna. Sobe o aroma, ele combina com o paladar. São interligados. O odor é agradável.
Dedico-me a descobrir os tipo de aroma. Os primários são aqueles advindos da uva. Cheiro de mulher. Eles se misturam com os secundários, que foram desenvolvidos durante a preparação, o perfume francês dela. E quando já estou no estágio mais avançado, percebo que há um terceiro: o aroma da moça nua. Sim, é diferente.
Fora todos eles, deixo-me ludibriar pelas notas frutadas e florais. Algumas tem gosto de baunilla, outras de manteiga.
Algumas são secas, me apertam a garganta, outras tão doces, que parecem suco de uva. Só acidez que não suporto, acidez que venha no vinagre, e não no vinho, e não em mulher.
Cada garrafa é única.Entre Sauvignon Blanc, Chardonnay, Cabernet, Merlot, Bordeaux ou Zinfandel, prefiro as damas.

Um comentário:

Anônimo disse...

cada dia + denso os seus textos..