sexta-feira, março 25, 2011

ônibus

Adoro tomar o ônibus, às vezes, porque tudo que se torna repetitivo me irrita.
Gosto de observar o comportamento humano na microesfera.
A beleza começa antes mesmo do ônibus parar, quando ainda estou no ponto, esperando. Fico na ponta dos pés, rente a quina do meio-fio. Ele passa rápido por mim, vupt. Vem o vento, sujo e fresco. Balança o pouco cabelo que tenho. Sinto que vou ser atropelada por estar tão perto. Abro os olhos. Estou viva. Dou um passo para trás. Respiro fundo.
Entro.
-w3 norte?
-É, não leu a placa não? - nunca vi aquele adesivo "gentileza gera gengileza" em traseira de ônibus, então perdôo o motorista por ser sexta-feira.
O cobrador mal olha para minha cara. É aí que percebo que sou mais uma alí. De que importa o que faço, ou quem sou?
Mas o que eu mais gosto mesmo é prestar atenção no comportamento alheio, nas conversas principalmente.
Atrás de mim estão sentadas duas senhoras, suponho que sejam domésticas:
- Minha patroa vai dar ingresso pro Luan
- Isso é coisa de gente nova, mulher. E nem me fale de patroa, hoje foi faxina total naquela mansão.
Na terceira parada, entram cinco adolescentes.
Elas vestem uniforme escolar, e tentam usá-los de forma que fiquem mais justos.
O jeito delas falarem é diferente, lembra minha adolescência (o que não faz tanto tempo assim). Gritam sem se preocupar com os outros. Usam as gírias da época "cabuloso, serião ou carai veí" para descrever o menino mais gato do nono ano, o qual uma delas já teve a felicidade de beijar.
Tento escutar as conversas, faço leitura labial, observo os olhos das pessoas para tentar adivinhar quem são.
Elas se assustam.
Uma das mulheres desceu uma parada antes, de certo achou que eu a estava paquerando.
O outro, um homem de farda militar, percebeu que eu olhava discretamente e acabou piscando.
Daí eu queria pular uma parada antes.
Mas resisti.
Continuei minha experiência urbana.
A última vez que andei de ônibus foi quando estava na escola. E nem pensava em pessoas, só em festas de 15 anos ou vestibular.
Enfim, amo pessoas estranhas, gosto de andar de ônibus.

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