domingo, novembro 07, 2010

A outra

A outra e o outro tinham história pra contar. Foram amigos, namorados e amantes.
Nos últimos meses, a outra saíra de vez em sempre com outro. Nutria sentimento estranho. Asco e repulsa de perto, mas quando estava longe era só saudade.
Trataram de selar um pacto: o relacionamento aberto, conhecido mundialmente como friends with benefits.
Para ela estava bom, para ele estava bom..
Durante as conversas, a outra comentava com seu par semanal sobre suas desventuras amorosas, que eram pouquíssimas, talvez tenha lhe falado só de uma. A outra não tinha paciência para se relacionar com carinhas desinteressantes apenas por carência. Se a vontade batia, a outra preferia ligar pro outro a tentar qualquer coisa mais arriscada e sem conteúdo.
O outro não comentara sobre as relações dele com outras. Dizia que "era chato falar sobre isso". Essa frase incomodava muito a outra, que sempre foi curiosa e queria saber de tudo, ser a agente na ação.
Considerando as ficadas, as conversas,as transas. O apego estava ali e ela nem percebeu, ele vinha tão de mansinho.
O coração começou a pensar e a cabeça a sentir. "Fudeu!" - pensou o músculo vermelho. Era dúvida. Comodidade ou amor?
Saiu dum café na esquina junto com amigos. Deu de cara com o outro e uma outra. Essa outra vem acompanhada de artigo indefinido, ela não estava na história. Quem é uma outra? É ninguém.
Cheiros de constrangimento e carnificina subiram no ar. Passou reto com o sorriso mais falso que já tinha feito na vida.
Punhalada no coração e nos dois cotovelos. Só não sabia se o que jorrava era sangue ou ego, por via das dúvidas, precisava de transfusão imediata.
Correu para o supermercado, comprou uma garrafa de vinho e foi pra casa. Estava remediada, finalmente. Sangue entrava pela boca e o ego escorria pelos olhos.
Ilusão para outra não era o amor, ilusão para outra era o desapego.