sábado, julho 11, 2009

Filho de peixe

Na faculdade eu era a menina bonita, uma das poucas que cursava Engenharia em São Carlos, os rapazes só tinham olhos pra mim. Toda jeitosa eu era: cabelos longos cor de caramelo, olhos verdes, uma cinturinha e um corpinho de violão que só quem viu sabe. Eu não era igual a essas mulheres frutas bombadonas, que tanto sucesso fazem, mas só servem mesmo para olhar, ninguém dá conta de comer uma melancia de uma vez só. Essa juventude ou é oito ou é oitenta, na minha época as moças tinham oitenta e oito, oitenta e oito de busto e de quadril, uns sessenta de cintura. Não sei como as modelos de hoje conseguem se sustentar naquelas perninhas raquíticas, são mais finas que meus pulsos, só devem servir de cabide. Homem que se preza não se satisfaz com palitinho não.
A faculdade era uma maravilha, ainda mais quando eu era o centro das atenções. Os rapazes brigavam pra valer pra namorar comigo, eu ficava na minha, só me divertindo. Até que me apaixonei para valer. Roberto era um moço bacana e um gatão,ou como diríamos na época: um pão!Olhos negros como jabuticabas maduras, mãos grandes e cabelos lisos também pretos, um sorriso branco que dava dor nos olhos quando se olhava. Comecei a namorar Roberto, não tinha muitas amigas, a maioria das minhas colegas parecia ter inveja de mim, mas Lulu me apoiava, Lulu era minha única e melhor amiga. Mamãe vivia discutindo comigo a respeito de Bebeto, dizia que era um riquinho gordo e chato que só sabia resmungar. Mas o que Dona Sônia sabia sobre o amor?Ela que casara com um velho safado e barrigudo viciado em bacon frito, ela que casara com um idiota em troca de comodidade e alguns trocados,essa mesma mulher vinha me falar de amor. Meu amor era lindo, nunca vi barriga nele e muito menos algum sinal de mal humor, mamãe era outra com inveja da felicidade alheia, uma senhora de trinta e oito anos que aparentava sessenta, sem trabalho, sem dinheiro e sem marido. Papai morrera em um prostíbulo, não agüentou duas putas ao mesmo tempo, teve um infarto e faleceu, para manter as aparências perante a sociedade, Dona Sônia inventou que o marido fora drogado e enganado por uma biscate qualquer, e claro, que com toda sua hipocrisia a high society aceitou as desculpas de mamãe, que até hoje afirma para si mesma essa história absurda.
Roberto tinha apenas alguns probleminhas, mas nada que o amor não superasse, eu não poderia deixar escapar minha alma gêmea em forma de príncipe. Íamos ao parque e nos divertíamos tanto, foi a época mais feliz da minha vida. As músicas que ele compunha para mim eram melhores que as do Djavan, suas poesias davam de mil nas de Drummond.O amor para mim se resumia a uma palavra: Roberto.Resolvi que após terminarmos a faculdade nos casaríamos, ele, como sempre, concordou e ainda disse:
- Papai vai adorar quando eu contar a ele sobre nosso casamento
E não foi que o velho adorou!Parecia estar mais feliz que o próprio noivo. Disse que o filho estava fazendo um bom negócio. Não entendi muito bem o que meu sogro quis dizer com essas palavras, mas acho que – na sua linguagem empresarial – ele quis dizer parabéns.
Casamos-nos e a festa foi linda, tudo pago pela a família do Roberto. Eu estava feliz até ouvir um comentário de uma mulher dentro do corredor do banheiro:
-Ixe Bebeto!Num podia ter arranjado coisa melhor?
-Em curto prazo foi o que deu – uma voz de homem respondeu
Fomos passar a noite de núpcias em hotel cinco estrelas de São Paulo. Eu estava super animada, era minha primeira vez com um homem, mas por algum motivo, na noite de núpcias, Bebeto deu-me um beijou descuidado, virou-se de costas para mim e adormeceu.
Mesmo desiludida, acabei dormindo. Mas acordei às cinco da manhã com o som de escandalosas risadas femininas no quarto ao lado. Pensei: ”Deve ser outro casal em noite de núpcias”. Sem perceber que Bebeto não estava na cama, fui à sacada.
-Aquela boboca mal sabe que me casei com ela só para assumir os negócios de papai. Para ser diretor, eu precisava me casar. Quando assumir, vou acabar com este casamento ridículo!
- Coitada, Bebeto, ela é só uma feinha interesseira.
- Interesseira você também é. Afinal, quem ficaria comigo por amor? Mas pelo menos você é gostosona!
Voltei para o quarto e não tive dúvidas: aquela era a voz de Roberto e para complementar a mulher pronunciara seu apelido. Voltei correndo para suíte do hotel, olhei-me no espelho e percebi que eu era só uma ruiva gorda com curtos cabelos mal-tratados e um nariz empinado. Ainda na noite de núpcias, abri minha bolsa, olhei para as fotos de Roberto e não o reconhecia: eu via um homem feio e nojento, com cabelo até as ventas e a barba suja de ketchup. Será que eu inventara todo aquele amor, toda aquela beleza por um pouco de dinheiro e comodidade?O pior: eu inventara uma mulher que eu não era. Deitei-me e dormi. Nos trinta anos seguintes, acordei como Dona Sônia: canelas inchadas e cheias de varizes. O cheiro forte de bacon no café da manhã incomodava minha filha adolescente. A filha da Lulu só sabia latir.

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