sexta-feira, outubro 13, 2017

sujeições

quando há alguns anos Álvaro de  Campos cantou aquela pedrada:

[Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.]

mas esse poema continua e é longo...

rolou uma identificação no primeiro sentir, daí teve um poema resposta, que eu não escrevi. mas tô escrevendo agora.


pensar por todas as pessoas possíveis
entrar no primeiro caminho que logo avisto 
deparar-se com objetos incancalculáveis
em um só lugar pequeno, disperso, impreciso.

sempre me apeteço do impossível no possível
criar irrealidades que são
prefiro viver as possibilidades do que nada
não me preocupa o nada
me ocupa o vazio

desrazão é o que penso
lógica é o que sinto
quero entender todos os seres
mas nunca poderei sê-los
e será que quero?

me submeto tantas vezes,
sou várias
sou dez mil pessoas


e foi assim que essa descrição foi parar no facebook e no tinder, "ser dez mil pessoas". 



terça-feira, outubro 10, 2017

auto-análise e análise

o desprendimento do próprio entendimento de sentir. perceber que o sentir é verdadeiro, mas também condicionado. deslocar-se no próprio ato de sentir. perceber que os afetos são aprisionados. entender onde se configura a potência de agir: em cada ser, em cada instante, ou mesmo , em cada contexto social, em cada estrutura de poder (como se fossemos foucaultianos).
entender que o outro sente. repeitar o sentido do outro sem recalcar o seu. perceber onde o sentimento é falácia. exaltar onde o sentimento é catarse. pensar onde moralizamos o sentimento. desprender o sentimento do afeto. racionalizar mais. racionalizar menos. procurar a própria lógica do afeto. contradizer-se. afetar-se. ser afetado. procurar no âmago da decorrência o movimento. prender-se mais ao movimento do que a causa e o efeito. ser mais formiga. ser menos formiga.

Aniquilada

refiz-me no contato com real
aniquilei toda sombra monstruosa
despachei-me no absurdo do ideal
a irrealidade virtuosa

com quantos imaginários
com quantos fantasmas
com quantas ausências
inventei um amor?

foi verdade
palavra inscrita
não me arrependo,
só não mais sublimo.

Mulher séria se serve de ironia

ontem, depois de dois mojitos (eu que tinha tomado, no caso)
Tive de ouvir que não era a sua mulher ideal, mas que tudo bem, porque isso foi sombreado pelas minhas qualidades, afinal, eu sou inteligente e bonita (que bônus!)

Quando o namoro deu ruim. Apareceu meu grande defeito: ser uma mulher engraçada, um pouco menos, ser uma mulher "engraçadinha" (pois meço 1,55m), e isso não fazia seu feitio; você gosta de mulheres sérias - essas sim que são para casar.

Benza deus que. no final (EIS O FATÍDICO), minhas qualidades não conseguiram esconder esse defeito tão cruel: ser engraçadinha. Que irritante, que petulante, que desgraçada.

terça-feira, outubro 03, 2017

história de amor em uma sentença e dez meses

Entrou e saiu da minha vida como se nada tivesse acontecido.

poema que eu não devia publicar aqui, mas foda-se

[Esse poema é de um rapaz que escreveu sobre mim. Tivemos uns beijos só, de uma noite, duas semanas depois sem nos falar, ele me diz que tem namorada. Não entendi a confissão para mim e não para ela, embraveci-me. Mas é sempre bom quando escrevem sobre você. Ego é foda.]


"com feições de menina travessa
subitamente estava diante de mim
descartando premissas
e provocando o contato

de imediato me vi em Montmartre
ouvindo Yann Tiersen no Café dos 2 Moinhos
absolutamente vulnerável aos seus movimentos
entregue à ideia de transformar arte em vida

depois de algumas palavras e silêncios já éramos Nino e Amélie
compartilhando carícias, desejos, horizontes
encontrando asilo político em beijos ardentes
desvendando sensibilidades epidérmicas

os sinais pretos sobre a face branca
a cicatriz acima da cintura
a verdade inscrita no olhar
tudo reivindicava permanência

e ali me deixei estar
inventando um novo amor
ciente de que a dúvida, a culpa e a covardia - diabólica trindade
aguardavam nossa despedida para me me fazer companhia"


[vou deixar assinado como "Nino"]

sábado, setembro 30, 2017

O drama de Beatriz

melodrama,
tão caro às raízes latino-americanas;

quanto mais me relaciono com o vazio, mais quero me preencher de excesso.

Minha prima Beatriz, que tem 7 anos, é muito dramática. Tão dramática que me reconheço nela.
Pisciana astuta. Musicista. Criança esperta, essas coisas...
Mas Beatriz chora, não é choro de manha. É choro de drama. Beatriz sofre e entende que o culto ao sofrimento - em certa medida- é essencial para sua existência.

Quando Beatriz perde algo, ela diz "eu sei", para quem lhe aconselha; mas continua chorando, e chora até seus olhos grandes ficarem vermelhos demais lembrando os dias de domingo que ela passa na piscina - sempre de olhos abertos embaixo d'água.

O que limpa mais: cloro ou lágrimas?

Preenche os vazios Beatriz.

Beatriz gargalha, e todo mundo acha lindo.

Quando Beatriz chora, todo mundo abraça. No entanto, tem dias que ela quer ficar só na sala. Não quer abraço, ela quer só chorar um pouquinho.

É isso mesmo Bia, sofre um pouquinho e depois volta para piscina.

O silêncio

O que transmuta o pensamento
Incentiva o tédio
Pluraliza o sentido
Acaba comigo

O silêncio que resiste
que ultrapassa o tormento
quanto mais insiste,
permanece em movimento

Quando me silencio
quando eu não quis dizer
quando menos posso,
mais calada tenho de ser.

o que significa o silêncio?



mas que raiva

Ando com raiva. Prendi- a durante muito tempo e agora veio, de uma vez só.
É quente, sufocante, pesada esgarçante, essa raiva que me prende. 
Esse sentimento que não é meu, nunca foi, mas nunca conseguiu atravessar, de fato, o meu corpo - o que deveria ser seu objetivo essencial, como qualquer sentimento? 
Essa raiva que encontra nas relações afetivas amorosas sua motivação. E ela se demonstra com certa ironia, porque não pode ser direta, não pode ser raiva, não explícita, nunca é. Porque clarear a raiva é clarear o ódio, e mulheres não odeiam, mulheres amam, amam demais.  

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Distração como solução para insegurança: uma obviedade!

Sempre distraída - e no processo errôneo da auto-análise, percebo: tal característica não passa do resultado da minha timidez absoluta. Sempre uma vergonha de não ser eu mesma e uma agonia por nunca conseguir sê-lo. É, então, mais interessante derrubar copos, esquecer pertences, quebrar coisas..
A inconstância das coisas é, para mim, o maior dos problemas: a mudança é sempre o permanente.

A angústia do gerúndio que nem existe em todos os idiomas... A pretensão de ser. O estado infinito do universo. Tudo isso me admira e me comove.

domingo, fevereiro 12, 2017

Incompetente

o fardo de se sentir capaz e não sê-lo. qual o motivo do paradoxo? Se agir é mais fácil do que pensar...
Só me resta o masoquismo da inação. O mundo anda agitado.

segunda-feira, janeiro 16, 2017

teoremas

se vivo pleno,
desisto!

o que apetece
a espera

o que sobra
no dia

o que denomina
o amor.



segunda-feira, dezembro 19, 2016

narratologias

vislumbre,
a frequência que apetece
o coração apaixonado

translúcido,
chega o corpo
com o reflexo irradiado

ficção,
as histórias tomam
conta do estado.

como é bom narrar
um amor recém
começado.





engodo

sempre me dói muito fazer um poema:

é masoquismo,
pois exige um pensamento analítico
que a própria poesia estorna.

um estado elíptico
que me incomoda
a qualquer hora.

mas "para quê poetas"?
se a ideia do sofrimento
é senão romantismo

profetas!

a alegria,
é, então,
um risco.


segunda-feira, novembro 28, 2016

A neurose lhe cai bem.


a poesia que não chega
o amor que não desce

a imagem que sobra
o pensamento que desvanece

a agonia que a assombra
o horror que permanece.

domingo, novembro 06, 2016

Ser insignificante

compreender os contextos de quem lhe magoou é tarefa muito difícil, quiçá impossível.
dentro das percepções feministas, ainda sim, tento não personalizar comportamentos - já que  o indivíduo seria senão vítima, tão quanto eu,  preso a esta linguagem falocêntrica - mas me questiono sobre a inerência do sentir. Sempre!
Estou presa na interzona entre a ontologia e a genealogia e vago hora numa, hora noutra.
Hoje, especialmente, não consegui liberta-me do meu ego e me senti tão magoada quanto insignificante.
Sem mais justificativas,  gostaria de culpar o afeto. Pois ele sim é o culpado. Porque na longa discussão entre afeto e apego aparece a indiferença - e esta dói muito - é ela que propõe o que seria o insignificante.

No entanto, logo me compadeço, ao lembrar das formigas, ninguém as nota - são o insignificante. Mas para mim, jamais. São o inverso não do significante, mas em si mesmas..

O olhar já não é minha sina.

quarta-feira, novembro 02, 2016

o segundo flerte

a missão
nunca será,
efetivamente,
solucionada.

o projeto
diz mais
do que
a pessoa amada.

inquietação,
estratagema,
labirinto,
que pena!

terça-feira, novembro 01, 2016

a tragédia

enquanto ao trágico,
vos digo:

importa o risco
a tragédia vem
do imprevisto.

azar
sorte
acaso:

O enigma!


Só é desfeito
através
do inacabado.

mas como ficar a espera do inesperado?

por que cinema?

o que me atormenta é uma pulsão erótica - que dadas as categorias estabelecidas no atual período - poderia ser classificada como masculina. Uma vontade de conquista e abandono (do tédio). Uma tendência ao risco e falta de senso.
Retorno aos pensamento libidinais, é o paradoxo querer racionalizar as sensações - é o meu maior impulso: e então o tempo, e então o movimento.

quarta-feira, outubro 12, 2016

uma balada leminskiana

o meu lado baladeiro
que outrora
me parecia uma saída
para o tédio existencial,
agora,
reluta aos caminhos comuns dessa vida banal.

é que a solteirice exige:
balada!

mas em cada uma delas sobra:
uma ressaca,
um arrependimento,
uma cantada bosta,
um vazio,
um tormento.

e a euforia
que parecia ser,
na pista,
arbitrária,
de repente,
surge
em ímpetos de epifania
solitária.

sexta-feira, setembro 16, 2016

três escalas

o prazer de ser outros
seria indício de psicopatia?

a metamorfose dos rostos,
incansável rebeldia.

a angústia do instável,
simultaneamente,
o gosto pelo desconhecido

sendo de desimportância o retratável,
e da maior importância qualquer coisa
sem sentido.



a rejeição

o mergulho,
a profundidade,
a morte,
o desespero.

o desencaixe,
o conflito,
a trama.

A competição entorno do conhecimento

Tomar o risco é se liberar do ego, pois o medo é o processo óbvio da autodefesa. Atirar-se no abismo da incerteza, ou pior, do julgamento alheio e ao passo que a dor do desprendimento é entendida como prazer - todo esse processo, exige grande maturidade. Maturidade possível somente nas crianças que não tem apego à imagem.

apropriada

Viver de acordo com o discurso que se pronuncia: essa seria a meta de vida para além do amor e da felicidade. Viver intensamente o que se pronuncia. Presenciar a experiência de acordo com a palavra dita.
O impulso quando racionalizado nada mais é do que sentimento. Já a plena consciência das consequências dos atos é o que faz o indivíduo não somente racional, mas impetuoso e sensível.

Coragem!